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até que esgotem
- Sabe o que você é? - disse Kathy. - Uma pessoa muito boa. Compreende isso?
Ele encolheu os ombros. Como a maior parte das verdades, era uma questão de opinião.
Philip K. Dick, Vazio Infinito
Pouco a pouco, ela envolvera-se ao longo dos anos numa situação de que não conseguia afastar-se. E ele agora não via nenhuma saída para ela; tinha-se prolongado por muito tempo. A fórmula tornara-se fixa.
Philip K. Dick, Vazio Infinito
Vagueou com dificuldade pelo quarto, examinando um livro aqui, uma cassete, um micromagneto. Ela até tinha um brinquedo que falava. "Era como uma criança", pensou, "realmente não é uma pessoa adulta."
Curioso, ligou o brinquedo falante.
- Olá! - exclamou ele. - Sou Charley Alegre e estou nitidamente sintonizado no seu comprimento de onda.
- Ninguém com o nome de Charley Alegre esté sintonizado no meu comprimento de onda - disse Jason.
Philip K. Dick, Vazio Infinito
Há semanas, durante uma daquelas conversas que nunca sabemos onde começam nem onde irão acabar, fiz alguns aforismos sobre a... como dizer... extrema rarefacção da minha vida sentimental. O meu interlocutor comentou então, à laia de consolo, algo como "foi pena, talvez tenha conhecido a mulher certa na altura errada". Que sim, talvez isso tenha acontecido, respondi-lhe, e se assim foi, significa que sou muito coerente: também conheci todas as mulheres erradas na altura errada.
Mas admito que não fui sincero naquele dia - pois cada vez mais percebo que, qualquer que tivesse sido a altura, teria sido a certa.
A tradução automática do Facebook bem que se esforça, mas parece que ninguém lhe incutiu a sensatez de saber quando parar.
Escondida no meio dos dramas da bola, das tragédias da chuva e das farsas da política, passou-me despercebida a notícia da morte de Angelo Badalamenti, um compositor com visibilidade algo discreta mas que será recordado como um dos grandes.
Quando digo haver nela um certo je ne sais quoi, não pretendo - de todo! - dizer que havia nela um certo não sei quê.

Angela Landbury em The Company of Wolves
Um colega de escola costumava dizer-me que se alguma vez se cruzasse com Jessica Fletcher, a protagonista de "Crime, Disse Ela", fugiria como do Diabo porque as pessoas tendiam a morrer como moscas à sua volta.
O Sapo faz um resumo da longa carreira de Angela Lansbury, exercício sempre algo ingrato pela necessidade de condensar 80 anos em dois ou três ecrãs de texto (o limite de atenção do internauta-padrão), mas parece-me injusto não haver nem uma menção a um adorável filmezinho de culto de 1984 chamado The Company of Wolves. Na cultura popular, Angela Lansbury será sempre Jessica Fletcher. Eu, quando penso nela, é primeiro como aquela avozinha cheia de superstições licantrópicas.
A miúda gira no stand da Fundação EDP, quando a abordei para lhe pedir o nº 5 da Electra, fez-me um sorriso tão aberto que só posso deduzir que recebe uma comissão das vendas - ou então, que tem passado ali dias entediantes. Ou isso, ou foram os meus olhos verdes que a deslumbraram (são castanhos), ou a minha farta melena loura que a entusiasmou (qual loura? qual melena? qual...?), ou a minha estampa atlética que a despertou (atleta do teclado e do Notepad++).
Decididamente, foi a comissão.
Por vicissitudes várias, há pelo menos uma dúzia de textos que, nos meus anos de blogosfera, já fiz e refiz inúmeras vezes na minha cabeça sem que uma única letra tenha sido (ainda) colocada no papel ou no computador. Um deles seria sobre Vangelis, que morreu na terça-feira. Não foi raro ouvir manifestações de estranheza pela minha admiração por ele. Que não reduzam a sua obra à "banda sonora do Guterres", foi o que sempre respondi aos sarcásticos, ou às bandas-sonoras de Blade Runner e Chariots of Fire, foi o que sempre respondi aos benévolos: a discografia de Vangelis pré-Colombo foi de contínua experimentação onde se ouve o rock progressivo dos Aphrodite's Child, o jazz, a música clássica, o minimalismo, o avant-garde, o pop e até algum rock mais eléctrico.
Hoje de manhã acordei sem água canalizada (todo o bairro está sem ela).
Também hoje de manhã morreu a última cria de uma ninhada de canários dos meus pais.
Depois digam-me que não há bruxas.
«Gilles contributed even more to the sport and to his own growing legend during the 1979 United States Grand Prix weekend at Watkins Glen. The patented Villeneuve display began on Friday when the track was soaked and few cars even ventured out of the pits. In fact, most drivers thought the flooded tarmac was simply undriveable.
Gilles did not share their opinion and Denis Jenkinson was there. "When we saw him going out in the rain, we said, 'This we've got to see!' Some members of the press, who think they know it all, don't bother to go out when it rains. But I was out on a corner in the rain watching him and all the hardball members of the press were with me. We had to see this. It was something special. Oh, he was fantastic! He was unbelievable!"
Another hardballer on hand was Nigel Roebuck. "Gilles was the one bloke who made you go and look for a good corner in a practice session because you knew that where everybody else would go through as if on rails Gilles would be worth watching. That day in the rain at Watkins Glen was almost beyond belief! It truly was. You would think he had 300 horsepower more than anybody else. It just didn't seem possible. The speed he was travelling didn't bear any relation to anybody else. He was 11 seconds faster! Jody was next fastest and couldn't believe it, saying that he scared himself rigid! I remember Laffite in the pits just giggling when Gilles went past and saying, 'Why do we bother? He's different from the rest of us. On a separate level.'"
Jeff Hutchinson, another British journalist, was also a greatly impressed witness. "The spectacle of him pushing that Ferrari to the limit, with great roostertails of water cascading off its rear wheels, just for the sheer fun and thrill of it, made the wet feet and miserable wait worthwhile. He lapped at an average speed of just over 100 mph!"»
Gerald Donaldson, Gilles Villeneuve - The Life Of The Legendary Driver
Faz hoje quarenta anos que morreu Gilles Villeneuve, um dos mais talentosos pilotos de sempre da Fórmula 1 (há mesmo quem o considere o mais). A memória é um processo curioso: eu era um gaiato na altura e apenas recordo vagamente uma imagem dele, pequeno e franzino, a celebrar uma vitória - mas lembro-me perfeitamente da sensação de entusiasmo com que me sentei, em domingos alternados, à frente da televisão para o ver correr.
"Fargas meteu as mãos nos bolsos das calças e passeou junto dos livros, oscilando sobre a perna inválida, olhando-os um a um. Parecia um magro e desastrado Montgomery que passasse revista às suas tropas em El Alamein.
- Às vezes nem lhes toco nem os abro. - Detivera-se, inclinando-se para reajustar um volume na sua fila, sobre a velha alcatifa. - Limito-me a limpar-lhes o pó e a contemplá-los durante horas. Conheço em pormenor o que há sob cada encadernação (...)
Corso folheou um livro. Era um exemplar magnífico, também com margens muito largas. Devolveu-o ao seu lugar com cuidado antes de se erguer, limpando os óculos com o lenço. Aquilo era capaz de provocar suores ao mais frio.
- O senhor não está bom da cabeça. Se vendesse isto tudo, não teria problemas económicos.
- Eu sei. - Fargas inclinou-se para rectificar imperceptivelmente a posição do livro. - Mas se vendesse isto tudo, já não teria razão para continuar a viver e portanto ser-me-ia indiferente deixar de ter problemas."
Arturo Pérez-Reverte, O Clube Dumas
"It's pretty nuts that the Ukrainian people elected their version of Sasha Baron Cohen as their President and he ended up turning into their version of Winston Churchill."
Ben Thompson, Badass of the Week
Descobri ontem à noite, pela intensidade dos festejos audíveis em todo o bairro, algo que desconhecia por completo: que vive aqui uma numerosa comunidade de expats oriundos de Manchester.