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São Valentim

por João Sousa, em 14.02.26

Sentado ao computador, sinto o sol a aquecer-me e vejo o céu apenas salpicado por farrapos de nuvens. Faz-me pensar numa tarde de há muitos, demasiados anos (doze? mais?). Ao regressar a casa, falhara o barco por poucos segundos e sentara-me na sala de embarque, preparado para a quase hora de espera. A sala estava vazia e quieta, com raras pessoas atravessando o terminal lá fora - tal como a minha casa está, agora, vazia e quieta, e ouço passos ocasionais na rua. O sol, entrando pelas grandes janelas atrás de mim, terminava um período de várias semanas de tempo cinzento: o céu estivera quase em permanência coberto por nuvens e a chuva, mesmo se não tão intensa como a que nos assolou nestes últimos dias, caíra miúda e persistente, dando ao próprio ar a sensação de uma humidade cinzenta. Ter o sol a aquecer-me a nuca e o pescoço, naquela tarde, retirava-me toneladas dos ombros e parecia um prenúncio da Primavera.

E então, Ela chegou.

Há muito que isto não acontecia. Eu já aceitara, com alguma melancolia, o esgotamento dos acasos do universo que durante meses me permitiram coincidir com ela no espaço e no tempo. Vê-la entrar, e segui-la com os olhos enquanto se sentava no canto oposto, ligava os auscultadores ao telefone e colocava-os nos ouvidos, fez-me pensar nesses acasos. Tivesse eu entrado noutra carruagem do metropolitano e talvez ganhasse tempo suficiente para apanhar o barco, e estaria naquela altura a meio do rio, sem saber o que perdera ganhando. E quantas vezes, antes, um passe mais renitente a sair do bolso, ou uma marcha mais apressada, tiveram influência semelhante?

Mas foi uma calma fugaz pois, logo a seguir, a velha cigana entrou na sala de embarque e eu conformei-me com o fim do sossego. Ela era a metade feminina de um já idoso casal de ciganos que se revezavam nas idas à cidade. Por qualquer razão que me escapava, pareciam ter-me adoptado informalmente, falando-me dos pequenos nadas sempre que me viam:

- E este dia hoje, tão quente que está? Já começo a estar demasiado velho para isto...

- E esta chuvinha tão chata de hoje? Tive que estar sempre a montar e a desmontar a banca... 

Por isso, conformei-me. Mas talvez por, encadeada pelo sol, não me ter reconhecido no outro extremo da sala, ou por entre a "família" e o empreendorismo ter escolhido o segundo, a verdade é que a velhota, naquele dia, foi sentar-se ao lado d'Ela. Deixou passar uns minutos, abriu o grande saco que trazia, remexeu lá dentro e tirou uma peça de roupa que lhe mostrou, reforçada por uma qualquer ladainha de comerciante. Sendo a sala demasiado grande para eu a ouvir, imaginei o que estaria a dizer:

"Olhe lá, menina linda, este casaquinho tão barato que fica tão bem com essa blusa que traz..."

Ela olhou para a velhota, tirou os auscultadores dos ouvidos, ouviu-a durante uns segundos e, com um sorriso, negou com um gesto da cabeça, recolocando depois os auscultadores. Mas a cigana não esmoreceu. Devolvendo ao saco o que tinha nas mãos e tirando outra coisa, voltou a promover-lhe algo. E de novo Ela olhou, tirou os auscultadores, ouviu-a durante uns segundos e, com um sorriso, negou com a cabeça, recolocando os auscultadores.

E eu, no outro extremo da sala, observava-a, extático, e questionava-me como era possível alguém conseguir pôr tanta graciosidade em gestos tão banais.

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publicado às 17:37


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